Índios isolados no Acre são pressionados por exploração de madeira ilegal

Índios que vivem isolados na Floresta Amazônica estariam sofrendo com a exploração de madeira ilegal na fronteira do Acre com o Peru, informou a agência Reuters, nesta sexta-feira (28). Estas tribos que vivem sem contato com o mundo externo teriam que se mover pela pressão dos exploradores.

Segundo a agência, líderes da tribo Ashaninka, que divide território com esta tribo e outras que também são isoladas, pediram ajuda ao governo e a ONGs para controlar o que eles consideram ser uma invasão de suas terras.

As fotos, feitas em 25 de março de 2014, foram feitas sem a autorização da Funai (Fundação Nacional do índio), segundo a assessoria de imprensa do órgão. A assessoria da Funai diz que seu departamento jurídico irá processar a agência pelo sobrevoo sem autorização e destaca que locais onde vivem índios sem contato com o mundo externo não são divulgados pela entidade exatamente para respeitar o desejo do indígena de se manter isolado.

A presença de madeireiros peruanos no Parque Nacional Alto Purus e em reservas territoriais criadas para a proteção dos isolados forçou, em 2007, a migração de um grupo de isolados para as cabeceiras do igarapé Xinane, na Terra Indígena Kampa e Isolados do rio Envira, do lado brasileiro. A assessoria da Funai ainda não respondeu se tem conhecimento sobre esta disputa de terra relatada pela Reuters.

É comum os índios de tribos isoladas saquearem casas de outras tribos e de seringueiros e agricultores que vivem no entorno de terras indígenas. A Funai, para evitar os saques e possíveis conflitos, realiza sobrevoos das áreas das tribos isoladas e lança machados e outros utensílios.

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Conheça tribos indígenas que vivem isoladas no mundo43 fotos

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Índios que vivem isolados no Acre, perto da fronteira com o Peru, apontam lanças e flechas para aeronave da Funai (Fundação Nacional do Índio), em registro de maio de 2008. O órgão federal monitora a tribo à distância há mais de 20 anos, portanto, não sabe qual idioma eles falam, muito menos outras informações sobre a etnia. Graças a essas pesquisas aéreas e ao trabalho de campo de sertanistas, o governo identificou 77 tribos que evitam o contato com a civilização Geison miranda/Funai/AFP

Políticas de proteção

Na última segunda-feira (24), foi formalizada, em Lima, no Peru, uma cooperação entre a Fundação Nacional do Índio e o Ministério de Cultura peruano para a proteção e promoção dos direitos dos povos indígenas isolados e recém-contatados que vivem nas regiões de fronteira dos dois países. Ao longo deste ano, equipes especializadas deverão realizar sobrevoos e expedições na mata nessas regiões, a fim de sistematizar informações que permitam compreender as dinâmicas territoriais desses povos, bem como as pressões externas e vulnerabilidades a que estão sujeitos.

Em 2009, a Funai e o governo do Acre ampliaram a política de proteção a grupos indígenas não contactados, como são chamadas as tribos isoladas. Incursões realizadas pelo órgão em 2008 e 2009 ao alto rio Envira confirmaram que há uma intensa movimentação de índios isolados na fronteira do Brasil, no Estado do Acre, com o Peru. A população dos isolados, estimada pelo sertanista José Carlos dos Reis Meirelles, dobrou nos últimos anos por conta, principalmente, da demarcação de terras indígenas e da política de proteção.

Em 2004, o próprio sertanista foi flechado no rosto, provavelmente por índios temerosos dos brancos que neles atiravam de espingarda durante caçadas na mata. Desde esse episódio, as políticas oficiais de proteção permitiram que a população dos três grupos de isolados já identificados subisse para pelo menos quinhentos índios em 2009. Um quarto povo, caçador e nômade, os Mashco-Piro, percorre amplas extensões da floresta em ambos os lados da fronteira e, no verão, costuma acampar em pequenos tapiris nas praias para coletar ovos de tracajá.

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Fotos de índios isolados na Amazônia do Peru3 fotos

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A ONG Survival International divulgou fotos inéditas de uma das 100 tribos isoladas do mundo. Os Mascho-Piro vivem no Parque Nacional de Manú, no sudeste do Peru Leia mais D. Cortijo/www.uncontactedtribes.org

Quem são os isolados?

De acordo com a Coordenação Geral de Índios Isolados (CGII), da Funai, existiam na época das incursões pelo menos 60 evidências de índios isolados, como são chamados aqueles índios que ainda procuram manter distância das ameaças representadas por diferentes atividades econômicas. Localizados em sua grande maioria na região amazônica, não sabe se ao certo quem são, onde estão, quantos são e que línguas falam. No Acre, os três grupos que habitam permanentemente no alto rio Envira são provavelmente falantes de idiomas do tronco linguístico Pano.

Sem contar os Mashco-Piro, já são pelo menos quinhentas pessoas vivendo em dez malocas (conjunto de cabanas) estabelecidas em diferentes aldeias. Esta pode constituir uma das maiores populações de isolados na Amazônia brasileira e em todo o planeta.

Os principais agrupamentos de malocas estão localizados nas cabeceiras dos igarapés Xinane e Riozinho, afluentes do rio Envira, e na cabeceira do igarapé Paranazinho, afluente do rio Humaitá. As principais malocas estão distantes a mais de 100 quilômetros umas do outro, o que pode indicar de que se trata de povos diferentes.

Os isolados vivem hoje em três terras indígenas demarcadas pela Funai (TI Alto Tarauacá, TI Kampa e Isolados do Rio Envira, e TI Riozinho do Alto Envira), com extensão agregada de 627 mil hectares. Outras seis terras indígenas e o Parque Estadual Chandless são também usados pelos isolados para caçar, pescar e extrair vários produtos da floresta.

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Tribo isolada da Amazônia é filmada pela primeira vez7 fotos

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Nove índios da etnia kawahiva andavam nus pela mata em Colniza, no Mato Grosso, quando foram filmados por uma equipe da Funai (Fundação Nacional do Índio). Esta é a primeira vez que a tribo, que evita contato com o homem branco, é registrada. Os homens levavam arcos e flechas, indicando que são os guerreiros do grupo (acima), enquanto as mulheres carregavam alguns objetos e as crianças Leia maisReprodução/TV Globo
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Índios Munduruku lutam contra o garimpo ilegal em suas terras15 fotos

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Índios guerreiros da tribo Munduruku chegam na vila de Katin, no final de um dia de procura de minas de ouro ilegais e mineiros perto do rio Kadiriri, um afluente do Tapajós e rios da Amazônia Lunae Parracho/Reuters
Do UOL, em São Paulo

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