Um vexame para a eternidade: A crônica da maior aula de futebol do planeta

Há quem diga que o futebol explica a vida. Eu sou um deles. E, se você concorda comigo, terá que admitir que ontem morremos. E não foi morte morrida. Foi morte matada mesmo, meu caro João Cabral de Melo Neto. De tão dolorida que não se entende. Não morremos para sempre, é verdade, mas morremos. Aquela morte que ataca até gente não nascida, poeta. Quem nascer hoje, amanhã, depois e por muito tempo, no Brasil, vai carregar nas costas o cadáver do Mineirão. Não há como fugir. O país que sempre respirou futebol encontrou ar por apenas 10 minutos. Perdemos até aquele oxigênio da indignação. Roubaram-nos até a força para cobrar alguma coisa. Não é fácil atropelar um país do tamanho do Brasil no futebol. Mas, ontem, morremos sete vezes. Nem um desfibrilador gigante, do tamanho da nossa vergonha, traria o nosso país de volta ao jogo.

Mesmo nós, todos os que acreditávamos, também não voltamos. Ficamos por ali sem entender que aquilo era um esporte chamado futebol. O que vimos foi outra coisa. Coloquem nos livros sobre futebol mundial que, em 8 de julho de 2014, o Brasil assistiu à maior aula de bola do planeta. O que se viu ou ouviu após o primeiro gol alemão é para o “silêncio ensurdecedor” de 1950 virar barulhinho bom. O Maracanazo, agora, é derrota menor. Barbosa, o goleiro que carregou o peso de uma cruz de sofrimento até a morte, se estivesse vivo, poderia sentir que a cruz que Julio Cesar vai carregar até o fim da vida é muito mais pesada.

Quem diria, grande Nelson Rodrigues. Você tem razão. Em futebol, o pior cego é o que só vê a bola. Mas nem isso conseguimos enxergar. Quando abrimos os olhos, estava escrito: 7×1. É conta de mentiroso. Sim. O que ocorreu ontem não pode ser verdade. Mas é. Um país inteiro tonto, zonzo numa roda de bobo, que nos levava sempre ao inferno. E o inferno não eram os outros. O inferno somos nós. Só ontem o visitamos sete vezes. E por lá vamos permanecer por muito tempo. Nunca vimos numa Copa a bola ultrapassar tantas vezes aquela linha branca que separa, da maneira mais simples do mundo, alegria e tristeza. É, meu caro amigo Afonsinho: “A perfeição é uma meta / Defendida pelo goleiro / Que joga na Seleção / E eu não sou Pelé nem nada / Se muito for, eu sou Tostão”.

Você precisava estar vivo, grande Armando Nogueira, para saber que ontem aprendemos o que é uma derrota de verdade. Se é verdade que “Deus só frequenta as igrejas vazias”, Nelson Rodrigues, podemos dizer que ele também não gosta de estádio cheio. Não foi a maior derrota do futebol brasileiro. Assistimos incrédulos à maior derrota do esporte brasileiro. Apenas porque, ontem, o futebol no Brasil foi reescrito. E não adianta. Foi reescrito por uma caneta com tinta alemã. Peço desculpas a Goethe, o maior símbolo da literatura alemã, mas todo brasileiro aprendeu o que é poesia e prosa ontem pelos pés de Müller, Klose, Kroos, Khedira e Schürrle.

Ontem, ouvi um porteiro de um prédio da Asa Norte dizer: “Esta é a pior Seleção de todos os tempos”. O menino que passava de mãos dadas com o pai escutou e respondeu: “Eu só vi esta Seleção jogar, mas concordo”. São 100 anos de história. Nunca caímos assim. Vamos ler uma centena de motivos para explicar o que ocorreu. Todo mundo terá razão. Mas um profeta que se preza não enxergaria uma tragédia desse tamanho para quem veste as cores verde e amarela.

 João Valadares

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