Publicado em 16 de dezembro de 2017

Acre celebra sua cultura e história com Prêmio Chico Mendes de Florestania 2017

Arison Jardim
16.12.2017 11:27

Tião Viana, acompanhado de Ilzamar Mendes (E) e Angela Mendes, viuva e filha de Chico Mendes, realizou a entrega dos prêmios (Foto: Sérgio Vale/Secom)

Em uma noite de emoção e reconhecimento das lutas socioambientais do Acre, o governo do Estado realizou a entrega do Prêmio Chico Mendes de Florestania nesta sexta-feira, 15. Os homenageados foram Colleen Scanlan Lyons, Francisca Arara e o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri, representado por seu presidente Francisco de Assis.

A escolha dos premiados marca um ano de conquistas para as questões ambientais e sociais no estado, além de dar luz à história de luta desses personagens. Cada um dos homenageados teve papel importante seja no avanço da organização social dos povos indígenas, na luta por direitos aos extrativistas e na construção de políticas públicas e projetos internacionais que contribuem para o desenvolvimento do Acre.

Ainda, aqueles que recebem esta honraria, ajudam a levar a história e a força de Chico Mendes por mais anos. “O mundo não entendia o socioambientalismo, não entendia a crise ecológica que estava chegando para o planeta. Mas quando Chico via o fogo das derrubadas e queimadas pouco inteligentes, da destruição de direitos humanos dos extrativistas, ele já dava uma mensagem para o amanhã do planeta”, declarou o governador Tião Viana.

O governador destacou que todo o avanço que ocorre no Acre e em parte do mundo, é fruto da mensagem que Chico carregou durante sua vida, ceifada por criminosos que desejam o fim dos extrativistas e da floresta. “Nós seguimos firmes em uma luta pelo desenvolvimento sustentável e pela melhoria de vida para os povos da floresta. Esse ambiente está entre nós porque tivemos uma geração inteira dedicada, mas sobretudo porque teve Chico Mendes, que traduzia um sentimento novo para o mundo”, disse Tião Viana.

Os premiados

A escolha dos premiados marca um ano de conquistas para as questões ambientais e sociais no estado (Foto: Sérgio Vale/Secom)

Angela Mendes, filha do líder seringueiro e presidente do Comitê Chico Mendes, um dos organizadores do evento, falou sobre o novo momento em que o estado vive. “Esse prêmio vem dizer que a gente não está mais lá na década de 70 e 80 em que se matava trabalhador a torta e a direita. A gente avançou no tempo e se fortaleceu, tem o sindicato organizado. Ao contrário do passado, a gente tem um Estado que não protege bandido, tem um Estado que apoia trabalhador e trabalhadora rural nesse país”, disse.

Agraciada na categoria Internacional, Colleen não pôde estar presente no ato, mas enviou sua mensagem de agradecimento em vídeo e acompanhou toda a cerimônia pela internet. Emocionada, ela lembrou de momentos únicos em sua adolescência, quando interpretou Chico Mendes em uma peça teatral.

Colleen falou também dos aprendizados que teve ao conhecer a história de Chico, mesmo que distante do Acre, em seu país de origem, Estados Unidos. Ela explica que tirou três conceitos da mensagem do líder acreano: trabalhar nas fronteiras, de forma interdisciplinar e com união.

“Quando eu penso sobre o modelo do Acre, como que vocês estão juntando desenvolvimento econômico, conservação da natureza e também a cultura indígena e extrativista, estamos trabalhando juntos para o desenvolvimento sustentável desse mundo que temos e isso é fundamental”, disse. Ela pontuou ainda que ” o modelo do governo do Acre é muito forte e está mostrando para o mundo como que podemos avançar juntos”.

Francisca Arara, originalmente chamada de Yaka, é do povo indígena Shawãdawa. Atualmente é coordenadora da Organização dos Professores Indígenas do Acre (Opiac) e levou para a Conferência do Clima deste ano, na Alemanha, a mensagem dos povos acreanos.

“Quando a gente fala da política que o Acre tem de gestão territorial, de valorização do agente agroflorestal, do nosso jeito de produzir e de pensar a sustentabilidade, da riqueza em que vivemos, de manter a floresta em pé e nossa cultura, isso causa impacto para outros locais”, afirmou. Francisca foi agraciada na categoria Iniciativa Estadual.

De suas lembranças de infância, quando via Chico e os companheiros subindo o Rio Juruá para organizar os povos da floresta, ela traz a mensagem de que: “Sem a união, nós não conseguimos chegar em lugar nenhum. Estamos aqui para dar continuidade a essa luta”.

Já o Sindicato dos Trabalhadores Rurais (STR) de Xapuri é um dos berços da organização de luta de Chico Mendes, nas década de 1970 e 80. Após a morte de seu líder maior, passou por alguns problemas, mas atualmente segue firme na luta pelos companheiros das Reservas Extrativistas e comunidades rurais do município. Este ano, ele completa 40 anos e foi agraciado na categoria Iniciativa comunitária, rural e florestal, levando R$ 10 mil para contribuir em sua reorganização.

Francisco de Assis, presidente do STR, representou os companheiros que estavam na platéia e os que estavam na floresta. “Esse prêmio a gente recebe em nome de todos os trabalhadores rurais. Ele significa o reconhecimento na continuidade da luta que Chico Mendes tinha na luta pela defesa do homem, da floresta, da posse da terra. A luta para que o homem da floresta, seringueiro e indígena, pudesse continuar vivendo em sua terra, tendo sossego e pudesse produzir de uma forma sustentável”, disse.

Assis também lembrou uma das mensagens mais importantes deixadas pelo homem que ousou levar para o mundo uma luta acreana, que se torna hoje uma luta de civilização pela proteção do futuro da terra. “É possível o homem buscar sua melhora de vida, morando na floresta e conservando seus recursos naturais”, declarou.

Francisca é uma liderança atuante no movimento de mulheres indígenas no Brasil (Foto: Sérgio Vale/Secom)

Francisca Oliveira Lima Costa Arara (Yaka Shawãdawa) é professora e liderança indígena, nasceu em 21 de novembro de 1977, no rio Cruzeiro do Vale, afluente do Juruá, na Colocação Repartimento, atual Terra Indígena Arara do Igarapé Humaitá.

É filha de Aidê Varella Arara e Francisco Albani Oliveira Arara. Seu pai foi liderança Arara que lutou pela demarcação da terra indígena ao lado de sua mãe Aidê. Tem nove irmãos, sendo a única filha mulher.
Cursou o ensino fundamental na escola indígena de sua aldeia e o Magistério Indígena no Centro de Formação dos Povos da Floresta. Fez graduação na UFAC – Campus Floresta em Cruzeiro do Sul, Acre. É casada com Altemiro Pereira Costa. Mãe do Marcio, do Yuri, do Jardel, da Anari e do Ian. Francisca é coordenadora da Organização dos Professores Indígenas do Acre/OPIAC e membro do Conselho Político da RCA.

Francisca é uma liderança atuante no movimento de mulheres indígenas no Brasil. Foi uma das organizadoras do Encontro de Mulheres Indígenas no Acre, que ocorreu de 29 a 31 de agosto deste ano, em Rio Branco, que reuniu representantes de diferentes povos da Amazônia brasileira e da região de Madre de Dios, no Peru.

Colleen Scanlan Lyons nasceu em 15 de abril de 1968, em Bemidji, Minnesota, quando seu pai, o Dr. Edward Scanlan, trabalhava na reserva indígena Red Lake, dos índios Chippewa.

Após a faculdade, trabalhou como educadora ambiental, ensinando estudantes nas montanhas de San Bernardino e nas florestas do sul da Califórnia. Após um ano, fez mestrado em Administração Internacional na Escola de Treinamento Internacional (Brattleboro, Vermont). Foi desse processo que nasceu o amor de Colleen pelo Brasil. Morou em Manaus por quase um ano para completar um estágio no Instituto Nacional de Pesquisa sobre a Amazônia (INPA), como parte de seus estudos.

Colleen obteve um mestrado e doutorado em antropologia cultural pela Universidade do Colorado em 2010. O trabalho de campo para sua tese focou nas questões ambientais e nos movimentos sociais na Mata Atlântica da Bahia.

Colleen Scanlan Lyons é antropóloga cultural, líder de projeto, pesquisadora e contadora de histórias. É apaixonada por projetos que promovam a conservação florestal e a inclusão social para o desenvolvimento sustentável. Atualmente atua como Diretora de Projetos da Força Tarefa de Governadores para o Clima e Florestas e codiretora do Laboratório de Inovação em Políticas de Energia e Meio Ambiente (LEEP).

Também desenvolve gerenciamento de projetos, com foco nos aspectos sociais da conservação florestal e da participação, mobilização e capacitação da comunidade. Atua nos programas de intercâmbio educacional entre o governo do Estado e a Universidade Federal do Acre (Ufac).

Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri (STR/Xapuri) foi a trincheira de resistência nos anos de chumbo do desmatamento e da bovinização da região nas décadas críticas de 1970 e 1980, que culminou com o assassinato de Chico Mendes em 22 de dezembro de 1988.

Com a morte de Chico Mendes, seus companheiros continuaram na luta, alguns anos depois o Sindicato caiu nas mãos de seus opositores. Após 11 anos, os antigos companheiros de Chico retomaram a administração da instituição.

O STR/Xapuri é presidido pelo extrativista Assis Monteiro de Oliveira, que compõem a chapa “Nossa luta, nossa história”, composta por 32 pessoas da Reserva Extrativista Chico Mendes.

 

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