Médica blogueira larga DF e trabalha 50h seguidas na linha de frente da Covid no Acre

Um perfil com tendências de moda e lifestyle, acompanhado por 170 mil seguidores no Instagram, entre eles, nomes conhecidos da sociedade e marcas em Brasília e Goiânia. Há pouco tempo, as publicações da médica recém-formada na capital, Taisy Ricon, de 24 anos, mostravam uma rotina comum à maioria das jovens influencers. Até que o mesmo feed passou a revelar, também, detalhes de sua experiência profissional como coordenadora de enfermaria no Hospital de Urgência e Emergência para Covid-19 em Rio Branco, no Acre.

Taisy concluiu o curso de medicina no ano passado e se mudou para Goiânia para ficar mais perto dos pais, que vivem em Anápolis. Uma das primeiras oportunidades de exercer a profissão foi justamente no hospital de campanha da capital, montado no início da pandemia do coronavírus.

“Eu estava organizando um intercâmbio na época e queria viver um desafio pessoal. Trabalhar com delivery, fazer trabalho voluntário… Mas, aí, começou a pandemia e, contrariando meus amigos e familiares, decidi aceitar o emprego no hospital. Era linda a ideia de me voluntariar fora do país, mas senti que deveria ficar e ajudar as pessoas aqui e agora”, lembra.

A jovem médica conseguiu bons resultados atuando na enfermaria e, poucas semanas após iniciar o trabalho, foi indicada, junto a outros colegas, para atuar no Norte do país.

No Acre, o número de contaminados pelo novo coronavírus tem batido recordes a cada dia e a quantidade de leitos disponibilizados para atendimento dos casos já é insuficiente. O boletim divulgado pela Secretaria Estadual de Saúde na quinta-feira (25/05) apontou para 3.103 diagnósticos confirmados e 78 mortes em decorrência do vírus.

O cenário assustou a goiana no início, mas não foi suficiente para fazê-la voltar para a casa. “Entraram em contato numa quarta e, na sexta-feira, eu estava aqui. Deixei minha casa, meu conforto, e tem sido uma experiência gigantesca em todos os aspectos”, destaca.

Apesar de poucos meses de experiência, Taisy ocupa um posto importante, de coordenadora de enfermaria, e tem enfrentado uma jornada de dedicação incondicional.

“Já teve dias que trabalhei 50 horas seguidas. Quando não estou atendendo, estou resolvendo outros problemas do hospital”, conta.

Ainda assim, ela se dá o direito a pequenas pausas. “Meu melhor momento é sair do plantão de 24h, 48h, às vezes, e parar em um lago que fica no caminho para o hotel, tirar a máscara por alguns segundos e respirar ar puro”.

Relatos emocionantes

Enquanto muitos influenciadores são flagrados ignorando as recomentações de isolamento, Taisy usa o Instagram para mostrar os sinais de uso contínuo das face shields, que já virou marca registrada dos profissionais de saúde na linha de frente da Covid-19. Assim, relata a realidade de médicos, enfermeiros e pacientes.

“Tive um paciente que, além de Covid-19, tinha uma fratura de coluna e quadro de insuficiência cardíaca. Ele estava com muita dificuldade em ficar deitado e, como lá não tem acompanhante, não tínhamos poltronas. A cadeira de rodas o machucava. Decidi que, para ele se sentir confortável até a cadeira chegar, eu ficaria ali, tensionando a perna dele, sentada em um banquinho”, conta.

“Passamos umas duas horas assim e, olhando para toda aquela situação, deixei uma lágrima escorrer. De repente, o paciente olhou pra mim e eu vi aquele senhor de 79 anos desabar, emocionado por estar ali e por poder contar com a equipe médica. Não demorou, estávamos os dois soluçando, sem dizer nada. Aquele dia me marcou muito.”

Segundo a jovem, a rotina tem sido uma montanha-russa. “Tem dia que a gente está numa tristeza tremenda porque teve que dizer que o pai não vai voltar pra casa. Noutros, estamos felizes da vida, como no Dia das Mães, quando pudemos dar alta par um mãe”, diz.

Vida de influencer

Filha de médico, Taisy sempre sonhou em ser seguir os passos do pai e vive um momento importante na carreira. No entanto, não pretende deixar o trabalho nas redes sociais e os milhares de seguidores que conquistou de lado. “Antes, eu produzia um conteúdo muito superficial. Depois que me formei, me mudei e terminei um casamento,comecei a mostrar meu desenvolvimento pessoal. E aí sim recebi feedbacks que me fizeram acreditar que eu posso influenciar mulheres a serem fortes, destemidas, terem iniciativa”, aponta.

As mensagens enviadas por seguidores também ajudam a profissional a se sentir motivada. “Eu sinto medo de me contaminar, saudade da minha família, que não vejo desde antes de chegar aqui mas, ao mesmo tempo, me sinto tão agradecida por fazer o que eu faço, amar tanto o que eu faço… E poder estar aprendendo como estou. Tenho muita gratidão.”

Metrópoles

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