Publicado em 30 de abril de 2013

Senador Jorge Viana diz que PT está jogando como ‘perna de pau’ na política

Brasília – A disposição de fotos na parede do gabinete do senador Jorge Viana (PT-AC) explica muito de seu perfil. Entre muitas imagens de Lula, estão também Dilma Rousseff, Marina Silva, Tancredo Neves, João Goulart e até o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que patrocinou sua primeira eleição a governador do Acre, em 1998. Um dos fundadores do PT, Viana é moderado e mantém relações com políticos de todos os espectros. Semana passada, a direção do PT tentou enquadrá-lo, após ele fazer um discurso colocando-se contra a proposta, defendida pelo partido e pelo governo, que tenta inviabilizar o Rede Sustentabilidade, de Marina, sua parceira política há três décadas. Em entrevista ao GLOBO, o senador critica a articulação do governo e destaca a necessidade de os três poderes dialogarem para evitar crises como a da semana passada.

Como se deu a crise em relação ao projeto contra a criação de novos partidos?

Não sou da base do governo, sou da bancada do governo. Mas, com a experiência que vivi de prefeito e governador, sempre petista, toda vez que eu vir que, para a nossa história, para o meu partido e para o nosso governo, o melhor caminho não é o que estão apontando, vou pegar o melhor caminho, e o farei de maneira pública. Porque é essa coerência que nós, que queremos ser respeitados, temos de buscar.

Houve pressão?

Aqui no Senado não tínhamos tratado dessa matéria e, olhando para a história do PT e do nosso governo, me posicionei e honrei isso. Nenhum partido foi mais vítima de casuísmos do que o PT: mudou-se período de governo, criou-se a reeleição de maneira fraudulenta, e outras regras foram mudadas, sempre contra o PT.

É um erro o projeto contra os novos partidos?

O Rede Sustentabilidade é algo novo, que vem legitimado em movimentos sociais e que se soma ao esforço de resgatar o respeito dos partidos e da política. O surgimento de um partido que traz uma liderança como a Marina é legítimo e tem que ser até saudado. Qualquer tentativa de mexer em regras que afetem candidaturas como de Marina ou de Eduardo [Campos, do PSB] não nos diz respeito, porque estamos governando o Brasil, e bem. Se a gente erra a mão nisso, a gente torna vítima quem não é, e nos distanciamos daquilo que a gente sempre defendeu.

No mesmo dia, na Câmara dos Deputados, foi votado o projeto de um deputado do PT que limita as ações do Supremo.

Acho que é absolutamente legítimo se querer alterar a qualificação desses votos [do Supremo] para algumas matérias. Só que este momento é inadequado para tratarmos disso. Não é bom, ainda mais no ambiente em que temos vivido, fazer um acirramento na relação entre os poderes. Isso tem feito mal ao país. Há absoluta deficiência de interlocução entre os poderes em Brasília, e há temas que exigem posicionamentos duradouros, que pensem a República.

A falta de interlocução política no Congresso é o principal problema do governo?

O PT mudou o Brasil, seus indicadores sociais, criou base para o crescimento, incluiu mais de 40 milhões de pessoas. Nossa agenda histórica está sendo implementada. Agora, naquilo em que nós sempre fomos tidos como bons, que é no fazer política, estamos surpreendendo negativamente. Eu comparo o PT à seleção brasileira: é tida como a melhor do mundo, mas, de vez em quando, joga como perna de pau e toma chocolate. A ministra Ideli [Salvatti, de Relações Institucionais] precisa de mais apoio. Precisamos ter uma relação melhor com os aliados, e isso tem que ser feito com profissionalismo. É de um amadorismo surpreendente o trato que a gente dá para estratégias da política.

Essa instabilidade pode afetar a reeleição?

A presidente Dilma surpreendeu positivamente nestes dois primeiros anos e tem grande apoio popular. São enormes as condições para que seja reeleita. Mas, para que isso aconteça, não podemos errar muito, principalmente no governo. A reeleição depende mais da gente do que dos arranjos da oposição, que foi quem de fato antecipou as eleições. Agora eles fazem um movimento que é novo, mas esperado, que é o de se reunir com os que foram aliados nossos e que se dispõem a fazer um enfrentamento com o projeto que ajudaram a construir.

Não foi o ex-presidente Lula que antecipou a eleição ao lançar a reeleição de Dilma?

Ele fez um movimento interno para o PT. Como alguns levantavam dúvidas, ele disse que ela era a candidata. Com isso, liberou a presidente para ficar livre, leve e solta, e governar. A presidenta realmente mexeu na agenda dela de viagens e do palácio, e foi uma decisão política muito acertada. Agora, vejo com perplexidade que o PSDB, que criou a reeleição, propõe o fim dela, talvez com medo do pós-Dilma ou de uma eventual volta do Lula.

Lula pode voltar em 2018?

Espero que o pijama esteja muito distante dos planos do presidente. Agora é que ele está ficando bom. É uma das maiores lideranças do mundo. O PT tem as duas maiores lideranças do país, Dilma e Lula, e é cedo para abrir mão deles.

*Jornal O Globo*

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