A vingança de junho

A deusa romana Juno, mulher de Júpiter, é ciumenta, tenaz e vingativa. Não perdoou ter sido esnobada por Páris, príncipe dos troianos, e caça este povo pela eternidade. Pior para Eneias, herói da epopeia de Virgílio, que escapou do massacre de Troia, mas comeu o pão que Juno amassou até chegar à Itália.

No antigo calendário dos reis romanos, é provável que junho, o quarto mês do ano, tenha sido nomeado em homenagem à deusa. No Brasil contemporâneo, o espectro de junho (ou de Juno?) vai se tornando uma incômoda pedra no sapato de mandatários eleitos pela população.

O Datafolha deste domingo serviu de oráculo da reaparição. O espírito de junho de 2013 foi detectado pela primeira vez ainda antes da onda de protestos. Na semana inaugural daquele mês, o instituto já revelava queda na popularidade presidencial, que antes parecia um colosso aquiliano.

As razões aparentes daquele primeiro abalo estavam ligadas ao pessimismo com a economia, exatamente como ocorre neste início de abril de 2014. As multidões na rua então exacerbaram o mau humor, ao qual se acrescentaram outras frustrações, ainda mal compreendidas.

Mas, como Eneias não precisava saber a origem olímpica da ira de Juno para sentir o peso de seu castigo, a sombra de junho de 2013 tem efeitos mais conhecidos.

Abate-se feito praga divina sobre a credibilidade dos políticos, em especial de quem ocupa cargo no Executivo. Dificulta os planos de reeleição. Favorece aspirações quase mitológicas de que a solução poderá vir num só golpe, desferido por alguém cujo valor pessoal se distancie do atribuído à vala comum dos políticos.

O vulto junino carrega maus presságios não pelo fato de facilitar a alternância no poder, princípio salutar. Preocupa pela falsa impressão da política –e do encaminhamento de problemas complicados de 200 milhões de brasileiros– que inspira.

vinicius motaVinicius Mota é Secretário de Redação da Folha. Foi editor de Opinião (coordenador dos editoriais) e do caderno ‘Mundo’.

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