Publicado em 31 de outubro de 2017

Amazônia une força política

Elson Martins

Não é só na Califórnia (Estados Unidos) que o Acre faz boa fita. Ao realizar na última semana (dias 26 e 27) dois megaencontros políticos em Rio Branco – o 16º Fórum de Governadores da Amazônia Legal e o Encontro de Governadores do Brasil Pela Segurança Pública, este para discutir o tema das fronteiras abertas ao narcotráfico -, o estado provou que faz boa política, respeitando as diferenças.

O mérito do feito é do governador Tião Viana, médico que se sairia bem, também, na carreira diplomática. Muitos de seus assessores até desacreditaram de que fosse possível tamanha empreitada. Afinal, se já era difícil realizar o encontro de governadores da Amazônia Legal, reunindo nove estados do Norte, imaginem juntar todos os governadores do país, mais quatro ministros, luminares do Poder Judiciário, militares, deputados e senadores, e até alguns representantes dos países que fazem fronteira com o Acre!

O total de convidados chegava a 300. Um deles, o presidente da República Michel Temer, na véspera sofrera um entupimento na bexiga e correu para o Hospital Militar. Outras duas figuras importantes, as madames do Judiciário Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal (STF), e Raquel Dodge, que substituiu Rodrigo Janot na Procuradoria Geral da República (PGR), preferiram cumprir agendas em Brasília. Merecidamente, levaram um sutil puxão de orelha do diplomático governador acreano, que lamentou publicamente a indesculpável ausência.

Os eventos se realizaram sem sobressaltos. Embora reunissem pessoas de diferentes tendências ideológicas e políticas, não houve espaço para a intolerância, porque a organização primou pelo bom trato e delicadeza, e o tema principal a ser discutido tinha caráter nacional: a violência e as drogas, as fronteiras abertas e o narcotráfico que deixam o país inteiro em estado de choque.

Não apareceu ninguém da esquerda gritando palavras de ordem ou panfletando contra a “ditadura” em vigor. A principal queixa partiu de governadores insuspeitos, como Robinson Faria, do Rio Grande Norte, Luiz Fernando Pezão, do Rio de Janeiro, Confúcio Moura, de Rondônia, e Pedro Taques, do Mato Grosso. Os quatro e os outros estão igualmente ameaçados pelo crime organizado, enquanto o governo central chafurda na corrupção de aliados.

Robinson Faria citou o caso de um comerciante de Natal, capital do estado, que foi assaltado 35 vezes e não confia mais em nada, principalmente no governo. Até porque a federação mantém um presídio lá, hospedando criminosos como Fernandinho Beira Mar e Marcinho VP. “A população está com medo”, disse o governador, propondo que o encontro no Acre “não seja apenas para tirar fotografia”.

O carioca Pezão, que além do pé, como sugere o nome, tem os olhos grandes, parece mais alarmado com a situação. Afinal, lá no seu estado atuam, fortemente armadas e organizadas, três facções do crime organizado e mais as milícias que espalham o terror na outrora Cidade Maravilhosa.

Do vizinho estado de Rondônia, que é quase o oposto do Acre em economia, veio a fala mais provocadora. Durante o jantar de encerramento do 16º Fórum da Amazônia Legal na quinta-feira, 26, ao se referir ao recém-criado Consórcio Interestadual de Desenvolvimento Sustentável da Amazônia Legal, o governador Confúcio Moura provocou: “Penso num consórcio libertador para que a Amazônia seja reconhecida. Falamos tanto em sustentabilidade, mas parece que falamos grego e ninguém entende. Queremos um consórcio para discutir a questão da migração venezuelana em Roraima, para defender a Zona Franca de Manaus e as áreas de Livre Comércio em outros estados. Um consórcio para defender a força dos estados amazônicos”.

Confúcio lembrou que os nove estados da região possuem 27 senadores e 72 deputados federais, portanto, uma expressiva força política desde que as bancadas atuem juntas em defesa da região.

A “Carta do Acre” assinada na noite de sexta-feira, 27, por vinte governadores e quatro ministros de Estado, sintetiza as demandas gerais levantadas nos dois encontros e pode se transformar num marco de governabilidade a ser implementada no país continental chamado Brasil, sem ignorar a Amazônia.

Jornalista

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