Coisas do outro mundo

1. No momento da morte de Steve Jobs, lembro-me de ler um obituário em que a Apple era tratada como uma igreja. Isso era visível nas pequenas coisas –o símbolo da empresa, por exemplo– e nas grandes coisas –as aparições do homem sempre que havia uma boa nova para anunciar aos fiéis.

Sobre o símbolo, a metáfora da maçã trincada é óbvia: Jobs apresentava-se como o paladino do conhecimento –e o conhecimento humano só começou quando Adão não quis desiludir a sua amada, comendo o fruto proibido.

E sobre as aparições, enfim, será preciso recordá-las? Jobs, em ambiente escurecido, com uma luz celestial sobre a cabeça, falando do palanque como um pastor fala ao seu rebanho.

Pois bem: foi-se Steve Jobs, mas as encenações sacras continuam. E os últimos dias foram dominados por um novo iPhone que mereceu as atenções da mídia. Disse “iPhone”?

Peço desculpa pela falta de respeito. A forma como o novo brinquedo foi apresentado, testado, comentado e comparado não é coisa racional; é um fenômeno transcendental, como se alguém tivesse descoberto a relíquia de um santo, prometendo milagres que a humanidade jamais experimentou.

Enganam-se os que pensam que o declínio das religiões tradicionais no Ocidente libertou os homens de qualquer crença.

A reverência do mundo pelos produtos da Apple é um exemplo de adoração infantil que reproduz, em tom pícaro, a peregrinação dos crentes aos lugares sagrados.

2. Sou uma pessoa gentil. Opinião alheia, não minha. Quando me conhecem, é esse o comentário que normalmente fazem nas minhas costas. “Lendo o que ele escreve, nunca imaginei que esse homem fosse tão simpático.” O que não significa que não surjam dificuldades no processo.

Em agosto estive em Paraty, muito bem instalado em pousada com nome que engana: a Pousada Pardieiro. Durante o café da manhã, um dos empregados passava com um exemplar da Folha. Eu: “Por gentileza, o senhor seria capaz de me dizer onde posso encontrar uma cópia do jornal?”.

O homem ficou a olhar para mim como se eu tivesse vindo de Marte. E a minha senhora, com um esgar de impaciência, atirou apenas: “Pode deixar o jornal?”.

O empregado sorriu como se alguém o tivesse salvo de um naufrágio. Disse “com certeza”, deixou o jornal e foi.

Então ela explicou-me: os brasileiros não me entendem porque, oralmente falando, o meu discurso é redondo e até excessivamente bem-educado. Isso é particularmente verdadeiro com empregados: eu faço pedidos; mas reparo que todo o mundo utiliza comandos. “Faça isso”, “traga aquilo”. E eles fazem, e eles trazem.

É nesses momentos que uma pessoa quase acredita na “luta de classes”. Quase. Porque, no Brasil, quem ordena e quem obedece encaram o fato com uma naturalidade que espanta qualquer visitante.

3. E por falar em espanto: confesso que senti algum quando escutei Barack Obama sobre os terroristas do Estado Islâmico do Iraque e do Levante. O presidente vai liderar uma coalizão para libertar a Síria e o Iraque da influência nociva do grupo. Através de ataques aéreos, claro, porque ninguém quer repetir as aventuras terrestres do caubói Bush.

Mas, ao contrário do que sucedeu com o caubói Bush, Obama parte para os ataques sem a necessária aprovação do Congresso. Bruce Ackerman, o conhecido jurista da Universidade de Yale, escreveu um texto devastador no “New York Times” com um título igualmente devastador: “A traição de Obama à Constituição”.

Tese de Ackerman: em 2001, o Congresso autorizou ações militares contra nações ou organizações que “planejaram, autorizaram, cometeram ou ajudaram” nos ataques de 11 de Setembro. A administração Obama baseou-se nessa resolução para justificar agora, 13 anos depois, nova campanha militar.

Infelizmente, e como é lógico, o EIIL não esteve envolvido no horror das torres gêmeas e nem sequer é um prolongamento da Al Qaeda. Se o presidente quer punir a selvageria do EIIL, tem pelo menos que respeitar a Constituição e mostrar humildade perante o Congresso.

Só que “humildade” não é palavra que se aplique a Obama. Nem a ele nem ao mundo antiamericano que, nos tempos arcaicos de George W. Bush, invadia as ruas e as televisões para vociferar contra o “imperialismo” de Washington.

Moral da história?

O “imperialismo” só existe quando existe um republicano que cumpre a Constituição na Casa Branca.

João Pereira Coutinho – Colunista da Folha de S. Paulo

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