Entrevista ou inquérito?

Aécio Neves e Eduardo Campos, os primeiros entrevistados do JN, foram meros coadjuvantes num espetáculo montado justamente para constranger Dilma num cenário de suposta isenção

Quem assistiu à entrevista da presidenta Dilma Rousseff no “Jornal Nacional”, da TV Globo, na segunda-feira, ficou em dúvida se ela estava realmente sendo entrevistada ou acusada: os apresentadores William Bonner e Patrícia Poeta pareciam muito mais inquisidores do que entrevistadores. Será que eles imaginaram que, com essa postura, até certo ponto insolente (Patrícia chegou a colocar o dedo em riste quase na cara da Presidenta), sugeririam isenção? Será que alguém é capaz de imaginar que a Globo é isenta?

A iniciativa de entrevistar os presidenciáveis, com o objetivo de oferecer mais uma oportunidade ao eleitor para conhecer melhor os candidatos, seria uma contribuição muito importante para a consolidação do processo democrático no país se essa fosse realmente a intenção da emissora dos Marinho: o que eles queriam, porém, era causar constrangimentos à Presidenta com perguntas que pareceram mais peças acusatórias. Aécio Neves e Eduardo Campos, os primeiros entrevistados, na verdade foram meros coadjuvantes num espetáculo montado justamente para constranger Dilma num cenário de suposta isenção.

Ninguém precisa ser muito inteligente para perceber a posição político-partidária da chamada Grande Imprensa, da qual a Globo faz parte, em radical oposição ao governo da presidenta Dilma Rousseff. A propósito, em recente artigo o presidente do Instituto Vox Populi, Marcos Coimbra, lembra que “muitos se esqueceram, outros nem souberam, mas a realidade é que a ‘grande imprensa’ formulou com clareza um projeto de intervenção na vida política nacional”. E acrescenta: “Não é teoria conspiratória. Quem disse que os ‘meios de comunicação estão fazendo de fato a posição oposicionista deste País, já que a oposição está profundamente fragilizada’, foi a Associação Nacional de Jornais, por meio de sua presidenta, uma das principais executivas do Grupo Folha”.

Na verdade, além do noticiário passional, que esconde o lado positivo do governo e destaca os aspectos negativos, os grandes veículos utilizam todos os meios possíveis para impedir a reeleição de Dilma, inclusive colunistas pouco afeitos à democracia que se mostram saudosos da ditadura e pregam, semcerimoniosamente, um golpe, ainda assombrados pelo velho fantasma do comunismo fora de moda. É o caso, por exemplo, de Arnaldo Jabor, um misto de cineasta e colunista com cara de maluco-beleza, que pertenceu à copa e cozinha de FHC e hoje faz parte da operação destinada a apear o PT do poder. Em sua mais recente coluna ele admite que as eleições presidenciais deste ano são “uma batalha entre democratas e não democratas”. Não parece difícil identificar os “não democratas” entre os que pregam o golpe, até porque ele próprio se confessa, nesse texto, entre os “alienados, os neoliberais, os direitistas, os vendidos ao imperialismo”.

Massacrado pela Grande Mídia – o manchetômetro criado pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Rio de Janeiro revela em números a ação deletéria dessa oposição desleal e desigual – o governo da presidenta Dilma Rousseff só conta agora com o horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão, iniciado nesta terça-feira, para restabelecer a verdade e levá-la ao conhecimento do povão. Não será uma tarefa fácil, já que desde praticamente o segundo ano do atual governo a Grande Imprensa vem fazendo a cabeça do eleitorado contra a sua administração. Uma verdadeira lavagem cerebral. E, por conta disso, algumas pessoas afirmam que não votam nela, mas não apresentam nenhuma razão. Simplesmente dizem: “Não gosto dela”.

Os controladores da Grande Mídia tem consciência do estrago que já fizeram, influenciando parte do eleitorado, mas ainda assim temem uma recuperação da Presidenta, que vem revelando uma tendência de crescimento nas últimas pesquisas de intenção de votos. Daí porque quase chegaram a festejar o trágico acidente que matou Eduardo Campos e trouxe Marina Silva para a frente dos holofotes, agarrando-se com unhas e dentes à ex-senadora acreana como tábua de salvação, capaz de levar o pleito para o segundo turno e até derrotar a candidata à reeleição. Eles apostam agora no fator Marina para catapultar Dilma do Palácio do Planalto, mas esquecem do peso do fator Lula, que promete decisiva atuação no horário eleitoral gratuito com inevitáveis repercussões em favor da Presidenta. As próximas pesquisas, portanto, já deverão dar novas indicações sobre os rumos da sucessão presidencial. É só uma questão de tempo.

Ribamar Fonseca * – * Jornalista

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