Publicado em 2 de maio de 2013

O pai da verdade

A maior mentira de todas as mentiras é dizer que  “o diabo é o pai das mentiras”. Se tem alguém que é absolutamente refratário à mentira, esse alguém é o diabo.

Não tenho notícias de guerras em nome da mentira. Alguém pode pensar na invasão do Iraque pelos EUA. Aí eu digo que pretexto é uma coisa, no caso a ameaça de armas químicas: um pretexto falso. Mas a invasão de fato ocorreu  em nome de uma – ou pior – de várias supostas verdades. As mesmas de sempre, aliás. Ora, se o pretexto era falso e serviu de álibi para a imposição da “verdade”, temos aqui vários elementos que confirmam a preferência do capeta pela verdade. Maquiavel foi o primeiro a assumir a verdade como arma mortífera. Trabalhava para o príncipe.

Somente a verdade é capaz de semear as cizânias, as guerras e  intolerâncias.  A mentira, ao contrário, tem a lassidão como conselheira, o zigue-zague feito método, o dito pelo não dito como regra. O acordo por natureza, e o lusco-fusco como vocação. A mentira é conciliatória.

Daí que Deus é brasileiro.

As nações e os povos se digladiam para reparar a verdade e a justiça supostamente ultrajadas. Outra inquilina do diabo: a justiça. Pode parecer chocante dizer que a verdade destrói e desqualifica, enquanto a mentira compõe, faz acertos e afaga. Sim, é chocante, mas é verossímil. Vejam só. A mentira não tem jurisprudência nem quer ter razão, ao contrário da verdade, que condena, julga e mata …em nome de quem?

Ao diabo só interessa a verdade.

Uma verdade bem aplicada é capaz de causar estragos irrecuperáveis  e gerar séculos de rancor, ressentimento e vingança. A verdade não admite tapinhas nas costas e não perde tempo. A verdade é incurável. A verdade é terrorista. Solidamente terrorista. A mentira se esvai. Um argumento mais um fato para substanciá-lo é o que basta para acabar com uma mentira. Mentira é vapor. Verdade é rocha. A verdade é hereditária. A verdade  está na gênese de todas as maldições. A verdade é imanente, sempiterna, ininterrupta e irrefutável.

A verdade é o diabo.

O pai da mentira é a verdade. Somente a verdade discrimina, separa, exclui  e isola. A verdade martiriza. A mentira é um arroto. A mentira, por exemplo, não tem a capacidade de engendrar doenças. O nome da multiplicação de boas e verdadeiras intenções é câncer. A verdade é câncer. Mentira é antídoto. Somente a mentira pode curar e interromper os fluxos vertiginosos, multiplicadores e suicidas da vida e da verdade. Mentira é a gentileza e a promessa de vida após a morte. Verdade é a vida antes da morte e o condomínio atrasado. A verdade é metástase.

A mentira é o inocente que comparece no hospital vestido de palhacinho pra distrair as crianças carecas. O câncer infantil é a expressão mais pura e bem acabada da verdade.

A mentira é o lado bom da verdade.

A verdade chafurda nas doenças e perpetua a raça. A verdade é a medicina, o avanço tecnológico. A mesma verdade que demorou 5 mil anos para inventar a penicilina agora prolonga o sofrimento do homem em nome de uma vida mais saudável, com mais qualidade. A qualidade de vida e os apartamentos de dois dormitórios com 40 m2 são invenções do diabo.

Quem, senão o diabo e os corretores de imóveis, teria interesse no aumento populacional? A verdade é o pai do método científico. A mentira joga truco.  A mentira apara as arestas, desconstrói e educa seus filhos para que eles não mergulhem na selvageria. A mentira dá a opção da subversão, enquanto a verdade é o jugo, o relho, a imposição e a piscina de hidroginástica da terceira idade.

As nutricionistas e as fisioterapeutas também são satanistas.

Somente ao diabo interessa propagar as virtudes da verdade para que a mentira seja marginalizada. A verdade usa a mentira como álibi (vide Iraque, Afeganistão, Alphaville IV). Ninguém abraça a verdade para confessar um assassinato. Mas na hora do crime, quem prevalece? Claro que é a verdade. Porque a verdade não engana, não manda recados, não dissimula.

A verdade é impiedosa, ela mata e condena em nome da mesma lógica que vende a paz e a segurança. A lógica é outra inquilina do diabo. A paz é a guerra em standy by. A mentira não tem autoridade, nem precisa se autojustificar como a verdade. A mentira não tem bandeiras, nem hinos, nem muros, nem porta-estandartes. Diferentemente da verdade, que se autoproclama o tempo todo e recorre a pingentes como a lógica, a razão e o juízo para se impor, a mentira não precisa de nada disso, não precisa provar nada a ninguém. Sabem por quê?

Porque o diabo não mente.

A mentira alarga prazos. A verdade despeja, desocupa e dá nomes de jardim pros cemitérios.

A verdade é um criadouro de hierarquias, lugares onde vicejam a ordem, a disciplina e a submissão. A verdade precisa ser construída e se alimenta de conflitos, intersecções, ponderações, arrazoados, escaninhos, despachos, protocolos, contratos, recursos, teses e antíteses, sintaxe, oratória, linguagem e o escambau. Ou seja, a verdade se alimenta da confusão,  embora use o disfarce do método e da disciplina para dar verossimilhança à  barafunda que enseja: a verdade é uma fuzarca, e o diabo é o rei da fuzarca, o príncipe da confusão. O diabo é o valete dos eufemismos. O pai da verdade.

A mentira, ao contrário, é simples. A mentira tem nome de meretriz, a mentira é arroz com feijão. A mentira é um alvo fácil para ser apontado e invadido. A primeira pedra não atirada é a verdadeira. O linchamento segue o mesmo padrão. O diabo se diverte.

Quando você é traído pelo seu melhor amigo, quem o traiu? Em primeiro lugar, sua verdade, e depois a verdade dele, ora bolas. Quem trai, não trai apenas num golpe, trai desde o início, desde sempre. Isso significa que a traição mais filhadaputa aconteceu quando o traidor dizia a verdade a você, e não quando você o flagrou na mentira. A causadora das decepções  e das dores é a verdade. As moscas que sobrevoam o lixo hospitalar são verdadeiras. A verdade é a alvorada e é o aborto que desperta a adúltera para mais um dia de traição. Sonhei com você.

– A mentira era o melhor de nós dois.

De nada adianta fulano se debater contra a verdade alheia, porque a verdade pertence ao outro da mesma forma que ela é sua, inalienavelmente sua (e vice-versa). Ou seja, para se alcançar a verdade, alguém sempre terá de abrir mão da verdade! A verdade é ouroboros.

Basta fazer uns cálculos. Nada muito sofisticado, uma regrinha de três é o suficiente para constatar que o diabo não pode ser o pai da mentira. Tampouco o filho. Nem parente distante. A  verdade apaga a luz e manda a fatura em nome da mentira. O diabo enxerga no escuro.

O único que falou a Verdade em nome da Verdade, que não precisou mentir pra dizer que era a luz, a Verdade, o caminho e a salvação, morreu como se fosse um mentiroso.

A partir desse dia, o diabo assumiu alegremente o epíteto de Pai da Mentira: nada mais falso, nada mais conveniente e nada mais diabólico . Nada mais humano. Nada mais verdadeiro.

Marcelo Mirisola escreve para o Congresso em Foco

* Uma das grandes revelações da literatura brasileira dos anos 1990, formou-se em Direito, mas jamais exerceu a profissão. É conhecido pelo estilo inovador e pela ousadia, e em muitos casos virulência, com que se insurge contra as panelinhas do mundo cultural. É autor de Proibidão (Editora Demônio Negro), O herói devolvidoBangalô e O azul do filho morto (os três pela Ed. 34) e Joana a contragosto (Record), entre outros.

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