O país dos extremos

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O Brasil é um país de extremos. E somos um povo muito injusto, apesar de sermos conhecidos como um povo acolhedor, simpático e feliz. Mas não sei até onde isso é realmente verdade, principalmente nos últimos tempos. A Copa no Brasil reforçou esse nosso extremismo, uma vez que na dura realidade do dia-a-dia somos mal humorados, grosseiros e mal educados, mas sabemos festejar bastante quando o assunto é diversão, nos esquecendo de todo e qualquer problema. Acredito muito que festejar e divertir sejam necessários para nosso bem estar, porém é necessário que haja equilíbrio. E equilíbrio não é o nosso ponto forte.

À beira de um precipício econômico que durará anos, festejamos a Copa, o carnaval e vamos festejar as Olimpíadas como se não houvesse amanhã. Só que houve. E haverá. E haverá zika, haverá inflação, desemprego, contas a pagar. Haverá também as eleições municipais, período em que teremos mais uma oportunidade de sermos equilibrados na escolha de nossos novos governantes. É bem provável que façamos tudo errado novamente e teremos mais quatro anos de reclamações. Mas existe, ainda, a chance de acertamos.

Enquanto eleitores, estamos sempre procurando alguém que salve a nossa pátria. A cultura colonizada que paira sobre nós talvez explique nossa síndrome. Talvez! Não sei bem se é isso. A verdade é que, como disse, somos injustos também. Quando encontramos o nosso salvador, fazemos dele o nosso herói incontestável e, na primeira decepção, procuramos um novo salvador, fazendo com que o anterior se torne vilão. Esquecemos tudo de bom que nos foi dado e simplesmente apagamos a sua história. Injustiça pura!

Falando de um passado recente: foi assim com FHC, com Lula e talvez seja com a Dilma. Fernando Henrique nos deu a estabilização da economia, controlou a inflação galopante dos anos 80 e 90 e, quando surgiu o Lula, FH tornou-se o “pior presidente da nossa história”. Como assim? As pessoas se esqueceram da história? Nos esquecemos dos ditadores que matavam pessoas? Então Lula veio para salvar o Brasil do fantasma FHC. E Lula foi o pai dos pobres, que nos trouxe avanço social e crescimento da classe média, manteve a estabilização da economia e deu oportunidades de estudo e trabalho para os que mais necessitavam. Lula terminou o mandato como o “melhor presidente da história”, tendo 87% de aprovação. Hoje, grande parcela da população quer vê-lo atrás das grades. Então surgiu a Dilma, que guiada por Lula, desempenhou bem os seus dois primeiros anos de mandato (2011 – 2012), mas naquele ano, no auge de sua popularidade, sua política econômica desenvolvimentista nos trouxe de volta a inflação, o desequilíbrio fiscal, quebrando o tripé econômico que sustentava nossa economia e fez com que aumentasse o número de desempregados no país. Nesse contexto de crise econômica, nasceu a crise política, com a Operação Lava-Jato, Zelotes e outras denúncias de corrupção pelo país, que tem nos mostrado o Lula que não havíamos conhecido e o FHC que também não havia sido apresentado.

De heróis a vilões da nossa história, Lula e Fernando Henrique Cardoso deixaram um legado ao Brasil que é incontestável. Isso não deve e não pode ser apagado, independente dos seus erros. Se cometeram delitos, que paguem por eles. Mas nossas gerações não devem se esquecer do que fizeram para que o país chegasse até aqui, bem como dos avanços que conquistamos.

Estamos agora à procura agora de um novo salvador. Dilma Rousseff já demonstrou que não será. Aécio Neves e Marina Silva não foram capazes de nos convencer que poderiam assumir esse lugar perante o povo. Dizem que Eduardo Campos estava prestes a ser condecorado como tal, mas perdeu a vida antes mesmo que pudéssemos conhecê-lo melhor e, antes também das delações premiadas da Lava-Jato o envolver em pagamentos de propina.

Que o nosso próximo salvador não seja eleito pelo calor da emoção, como fizemos em 1994 com FHC, em 2002 com Lula, e em 2010 e em 2014 com Dilma. Que seja alguém capaz de nos levar novamente ao rumo que precisamos tomar. E que dessa vez seja sustentável, diferentemente do que tem acontecido nos últimos anos. E que não sejamos mais injustos e tenhamos a capacidade de reconhecer o seu legado na história que contaremos aos nossos filhos e netos.

Victor Caria

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