Verdades e mentiras no horário eleitoral, segundo jornalistas

Diz o senso comum que, assim como na guerra, em uma campanha eleitoral a primeira vítima é a informação. Em grande medida, creio que é assim mesmo. Na hora que começa a disputa fica mais difícil distinguir a boa da má informação, mesmo porque “verdades” e “mentiras” não são absolutas, vem quase sempre juntas e misturadas.

Assim, é “verdade” que tal programa de governo alcançou tais resultados, mas é “mentira” que isto solucionou o problema. Pode ser “verdade” o diagnóstico feito pela oposição, mas “mentira” que a solução seja simples – e assim por diante.

No horário político da TV, o que vemos é propaganda, como o próprio nome diz. Seu objetivo é ganhar o voto do eleitor. Já este, escolhe como pode. Neste sentido a internet e as redes sociais ajudam o eleitor a qualificar a informação – a navegar melhor no mundo da fantasia política. O eleitor em 2014, ao contrário do que muitos dizem, está exigente e exercendo como pode sua capacidade de escolha – ele quer melhorias nos serviços públicos e mudanças, não necessariamente de nomes mas de modo de fazer as coisas.

Nesse sentido, uma boa iniciativa que encontrei de acompanhamento das eleições foi lançada na semana passada por um grupo de jornalistas da Agência de Reportagem e Jornalismo Investigativo, aPública.

Os jornalistas como que participam de um jogo de cartas, o Truco!, com os candidatos. Para cada programa de TV (até agora foram 3) são selecionadas algumas frases e feita uma checagem.
Dilma Rousseff, candidata à reeleiçãoDilma Rousseff, candidata à reeleição
O que dizem os candidatos são classificados em diferentes tipos de carta:

— Blefe! é a informação falsa.
–“Não é bem assim”, é a informação exagerada.
— “Tá certo, mas peraí”, a informação é correta mas merece ser contextualizada.
— Zap! é informação correta.
— E Truco! são informações insustentáveis e as promessas grandiosas e sem explicação de como serão realizadas – nesse caso as campanhas são desafiadas a se explicar ao eleitor.

No meio do bombardeio de informações que é uma campanha eleitoral vale a pena dar uma olhada em uma iniciativa como essa.

Separei a seguir alguns resultados.

Programa 2 de TV que foi ao ar na última quinta-feira (21):

Aécio ganhou uma carta Truco! por conta da frase a seguir que apareceu na sua propaganda:

“39 ministérios? Cortar pela metade”.

Os jornalistas perguntaram à campanha: Quais os ministérios que serão extintos? Quais os novos ministérios que serão criados?

Dilma, no mesmo programa do dia 21, ganhou uma carta Blefe!, pela seguinte frase na sua propaganda:

“Esta obra (Belo Monte) vai trazer logo logo luz elétrica para milhões de brasileiros em todo o país”.

Dizem os jornalistas: “Mais de um terço do Brasil está fora das atuais previsões de distribuição de energia de Belo Monte: Amapá, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná, Rio Grande do Sul, Rondônia, Roraima e Tocantins”.

Uma outra intervenção de Aécio recebeu uma carta “não é bem assim”, pela seguinte frase que apareceu na propaganda:

“(Aécio) terminou o seu segundo mandato com mais de 92% de aprovação”.

Escrevem os jornalistas: “Para afirmar que houve 92% de aprovação, o programa de Aécio Neves somou o porcentual dos eleitores que consideraram o seu governo regular ao percentual dos que o avaliaram ótimo/bom – o que é enganoso”.

Dilma também levou uma carta “Tá certo, mas peraí”, quando seu programa de TV afirmou que:

“Dilma também garantiu por lei que 1 trilhão e 300 bilhões do pré-sal seja investido na educação e na saúde”.

Os jornalistas ponderam que: “O que o programa não falou é que o número apresentado – 1 trilhão e 300 bilhões – é apenas uma estimativa de investimento e de prazo longo, para os próximos 35 anos”.

A lista de verdades, mentiras, meia-verdades, quase-mentiras, que serão ditas nas próximas semanas só vai crescer. Seja como for, o eleitor toma sua decisão cruzando o que vê e ouve na TV, no rádio, lê nos jornais etc, com sua vida concreta, com seu cotidiano. O voto é um cálculo do qual o programa eleitoral é variante de peso. Nem tudo é verdade, nem tudo é mentira.

Por Rogério Jordão  Siga-me no twitter! (@rogerjord)

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