Publicado em 22 de novembro de 2012

Pais tóxicos: filhos insuportáveis

Luísa Galvão Lessa*

A vida submete os seres humanos a muitas experiências. E, no decorrer do tempo, as pessoas passam por situações difíceis, delicadas. Mas de todas elas, boas ou más, é possível retirar grandes lições. Tenho procurado leituras sobre as relações tóxicas de pais e filhos. Há pouca literatura sobre o assunto. Parece-me, até, que ninguém vive o drama de ver pais reféns de filhos ou filhos reféns de pais. Foi nessa peregrinação, para encontrar algumas respostas, que descobri alguns artigos a apontar uma luz no final do túnel, com conceitos da Psicologia Analítica (JUNG, 2000, § 4, p.16).

Diz o estudo ser possível alguém se divorciar de um cônjuge, por um ponto final no namoro, mas muito difícil conciliar uma relação quando o casal, já de idade, possui filhos tóxicos de outro casamento. Isso ainda fica mais complicado quando uma das partes teve infância difícil, conflituosa com o pai ou com a mãe. A psiquiatria explica que esse ser pai ou mãe, embora tenha alcançado sucesso na vida, não consegue ter boa autoestima. A neura que fica da relação conflituosa que teve na infância com os pais não é fácil superar. Devido esse trauma oferece ao filho a proteção que nunca recebeu. Essa atitude é uma espécie de compensação a si mesmo. Trata o filho como um “rei no trono”. Cria, assim, uma área de instabilidade com o filho, pelo excesso de proteção, por que deseja que o filho tenha a vida que ele não teve. Assim, há uma castração de liberdade, de ambos, e a relação torna-se doentia. Ambos precisam de tratamento psiquiátrico.

Um comentário sobre o tema do Édipo foge aos propósitos do artigo, mas não se pode deixar de destacar a importância da superação da ligação com o pai para o desenvolvimento psíquico da filha mulher. Hillman (1995, p. 88) diz, “sempre que idealizamos o pai permanecemos filhos, a filha, para tornar-se mulher, precisa desidealizar o pai”. A filha mulher precisa romper a fidelidade incestuosa com o pai para poder se desenvolver como mulher, em sua plenitude, como diz Lima Filho (2002).

Segundo a psiquiatria, os relacionamentos raramente são totalmente bons ou ruins. Muitas vezes os pais são carinhosos; n’outras, carrascos a cobrar aquilo que idealizam para si. Mas nem dessa forma dão solução à vida dos filhos, pois ao tempo que cobram ofertam demais. Esse tipo de pai ou de mãe nutre pelo filho um sentimento de piedade, quando na verdade a piedade é de si mesmo, de sua infância triste, do desamor, abandono que sofreu. E com o excesso de piedade, permanece, rotineiramente, sufocando o filho ao tempo em que dá e cobra, espera e não recebe. Se não educou bem o filho como esperar bom resultado?!

Por isso tudo, numa relação afetiva entre casais, com filhos adultos de outro casamento, romper um laço tóxico é tarefa difícil e rara. Por isso a pessoa que chega esbarra num muro surdo. Toca, toca e não obtém respostas. Há uma muralha a separar afetos, pois trata-se de seres egocêntricos, egoístas, doentios, que olham para si e para si. E como a pessoa que chega não possui laços consanguíneos, ver, claramente, a dubiedade da relação familiar construída pelos traumas, lembranças, mágoas, individualismo, parede de proteção, egocentrismo. Essa pessoa que chega não é competidora de filhos, busca uma relação pura de amor que eles não conhecem. Como não possui os traumas de seu par, sofre a angústia de vê-lo no desgaste eterno doando-se como salvador de uma causa quase perdida.

Judith Lewis Herman, especialista em trauma e professora de psiquiatria da Escola de Medicina de Harvard, afirma que a melhor forma de libertar os filhos é curar os pais doentes. A receita é ensinar aos filhos a forma de se autoprotegerem de pais tóxicos, que se julgam donos dos filhos, querem tomar conta de suas vidas até mesmo quando os filhos passam de 40, 50 anos.

A esperança dos terapeutas é que os pacientes consigam ver o dano psicológico de uma relação prejudicial entre pai e filho. Somente com ajuda médica esses pais e filhos conseguirão mudar esse modelo doentio de relação, que não permite ao pai ou ao filho ser feliz. Ainda mais se chega outra mulher, que passa a ser odiada pela filha do antigo casamento como se fosse usurpadora da felicidade que ali ninguém tem. Todos simulam uma vida exterior pacata, mas o interior está em reviravolta, numa inconstante instabilidade. Nem pai nem filha são felizes, são dois mentirosos que enganem a si e aos outros. Pior de tudo, culpam os outros pelo insucesso que têm.

Em qualquer caso, a atenção e o respeito devem ser dados ao caso. Não deve o filho ou filha provocar uma inversão na ordem da relação do casal. O apoio de um pai, de uma mãe a um filho tóxico, no novo relacionamento, é o pior desserviço que pode prestar. A vida exige ações grandiosas e não atos insanos de egoísmo, baixa-estima, péssimo ensinamento aos filhos.

Os pais precisam colocar limites para os filhos crescerem, não apenas de tamanho, mas em atitudes, respeito aos outros, em especial aquela pessoa que chega na vida do pai ou da mãe, numa nova parceria de afeto, amor, doação. Esse filho é um ser com uma quantidade enorme de energia, que precisa, desde cedo, ser bem canalizada. Essa pessoa precisa aprender a gerenciar essa energia adequadamente e, para tanto, precisa de um enquadramento e um direcionamento que, principalmente, ao pai cabe dar.

Também é importante que pais e mães possam ser amigos de seus filhos, mas, antes de qualquer outra coisa, por amor a eles os pais têm o dever de educá-los, de colocar limites, estabelecer proibições. Os filhos necessitam de pais e mães mais próximos, mas precisam, igualmente, de pais que saibam dizer não, saibam estabelecer limites entre suas vidas e a vida dos filhos.

Para educar um filho não há fórmula ou manual que se possa seguir, pois cada filho e cada pai e mãe são únicos em sua natureza. Todos precisam ser respeitados. As pessoas escolhem com quem vão casar, de quem serão amigos, mas não escolhem os filhos, assim como os filhos não escolhem os pais. De toda forma, é preciso saber conviver com eles. De tudo uma coisa é certa: Educar é também frustrar; é dizer não e contrariar a vontade do filho, quando necessário. Não há como escapar disso, sob pena de o próprio filho sofrer as consequências em sua saúde física e mental. Quem ama cuida bem.

Educar também envolve dizer e ouvir o “não”. Significa ensinar que para cada ato existe uma consequência e para cada regra quebrada, uma punição. Significa mostrar que o mundo não gira ao seu próprio redor. Por mais duro que pareça, aquela negativa ou aquela bronca, que parece ser tão difícil de pronunciar, também é um ato de proteção, um ato de amor. Se amar significa querer fazer o melhor por alguém, que tal criar os filhos para serem pessoas melhores e honradas? Educar para a vida é a maior prova de amor que existe.

Então, é preciso entender que o excesso é prejudicial em todos os sentidos, inclusive o amor sem limites. Educar envolve muito mais do que o instinto de proteção, mas também a dura missão de impor fronteiras entre o novo par que se forma e o dever de respeito dos filhos. Educar é dar o direito ao filho de seguir seu destino, ser dono de sua vida. Educar é deixar claro ao filho que o pai ou a mãe pode constituir nova família. Todo ser humano necessita de um para caminhar pela vida. Pai e mãe não são propriedade de filho, ainda mais filho tóxico. O pai, sendo portador do Logos, permite ao filho (a) viver a falta instalada na psique, mas também proporciona o desejo de seguir em frente, de forma a atingir o que está faltando para o caminho da independência, da felicidade como ser humano livre. Não há crescimento em um ambiente superprotetor, como destaca Stein (2001, p.34). Seres livres e responsáveis tornam o mundo melhor.

DICAS DE GRAMÁTICA
NÃO SABIAM AONDE ELE ESTAVA ou NÃO SABIAM ONDE ELE ESTAVA?
– O certo: Não sabiam onde ele estava. Aonde se usa com verbos de movimento, apenas: Não sei aonde ele quer chegar. Aonde vamos?
O GOVERNO INTERVIU NO CASO ou O GOVERNO INTERVEIO NO CASO?
– Intervir conjuga-se como vir. Assim: O governo interveio. Da mesma forma: intervinha, intervim, interviemos, intervieram. Outros verbos derivados: entretinha, mantivesse, reteve, pressupusesse, predisse, conviesse, perfizera, entrevimos, condisser, etc.

Luísa Galvão Lessa – É Pós-Doutora em Lexicologia e Lexicografia pela Université de Montréal, Canadá; Doutora em Língua Portuguesa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ; Membro da Academia Brasileira de Filologia; Membro da Academia Acreana de Letras.colunaletras@yahoo.com.br” data-mce-href=”mailto: colunaletras@yahoo.com.br“>colunaletras@yahoo.com.br

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