Assistente social cria projeto inédito para atender famílias de luto em IML

Da Universa, em São Paulo

19/02/2019 04h00

A rotina da assistente social Maria das Graças Monteiro, de 50 anos, é incerta. Quando seus familiares perguntam se ela vai trabalhar no dia seguinte ou no final de semana, por exemplo, a resposta é sempre “não sei”. Ela é a única profissional de plantão no Núcleo de Apoio às Famílias das Vítimas de Morte Violenta do IML (Instituto Médico Legal) de Rio Branco, capital do Acre.

A iniciativa, que há dois anos ganhou da Secretaria de Segurança Pública do Acre espaço próprio dentro do IML, é pioneira no país e começou a ser colocada em prática bem antes — por mais de quatro anos, ela atendeu famílias em luto na sala de espera mesmo, de forma voluntária. “Eu trabalhava no Instituto de Identificação [no próprio IML] e comecei a ajudar quem precisava. Até que um ex-colega disse ‘Graça, você já é uma assistente social. Só falta ter diploma'”, contou à Universa, sobre o começo de sua trajetória.

 

 

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Graça atende famílias que perderam entes queridos de forma abrupta e violenta (por arma de fogo, arma branca, suicídio ou acidente de carro, por exemplo), mas não tem recursos financeiros para arcar com as despesas da morte — um dos critérios para o atendimento é receber o benefício do Bolsa Família.

“As pessoas chegam aqui sem chão. Eu acolho, oriento como conseguir o auxílio-funeral e encaminho os documentos [para a Secretaria Municipal de Serviço Social]. Mas, em alguns casos, acabo ajudando a escolher o caixão, levando os parentes para o atendimento psicológico e o que mais precisarem”, disse.

Alta tensão
Como trabalha principalmente com casos de morte abrupta e é a única assistente social disponível na instituição, Graça é chamada ao trabalho a qualquer momento — “de segunda a segunda, até de madrugada”, explica.

Ao marido e aos filhos, de 17 e 24 anos, só resta apoiá-la: “Eles me ajudam no necessário e, como eu, não acham que é só um trabalho, mas uma contribuição para o coletivo”.

Para aliviar a tensão, há pouco mais de um ano Graça se dedica a tocar bateria. “Eu sempre gostei, mas nunca tinha de fato tocado. É uma carga muito pesada, então eu toco para tirar o estresse todo quando chego em casa”, conta.

A assistente social se dedica à música sozinha quase todos os dias. Duas vezes por semana, tem aulas com um professor, em casa.

Plano de expansão
De 2017, quando virou um projeto da Secretaria Estadual de Segurança Pública com a ajuda do secretário da pasta, Vanderlei Scherer Thomas (que na época ocupava o cargo de secretário adjunto), o Núcleo de Apoio às Famílias das Vítimas de Morte Violenta já atendeu mais de 300 famílias.

A ideia, segundo promessa da nova gestão da secretaria, é ampliar o projeto em 2019 e garantir, pelo menos, mais um profissional para revezar com Graça os plantões aos finais de semana. “Aos sábados e domingos é bem mais complicado. Tem fim de semana que eu atendo três ou quatro casos, fico muito sobrecarregada”, conta.

Além disso, segundo a assistente social, ela e o secretário estão negociando a possibilidade de estabelecer uma parceria oficial com alguns psicólogos da cidade, para tornar o atendimento às famílias parte do procedimento do núcleo.

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