Publicado em 10 de abril de 2016

Um espírito da floresta, Paolino fez do Acre sua casa e sua missão

Jorge relembra as boas ações que Paolino fez para o povo do Acre (Foto: Arison Jardim/Secom)
Jorge relembra as boas ações que Paolino fez para o povo do Acre (Foto: Arison Jardim/Secom)

Os olhos vermelhos marejados de saudade, o caminhar calmo e lento para se despedir do amigo, torcendo para que o tempo não passe e aquele abraço no caixão dure para sempre são visíveis a todo momento em Sena Madureira. Gerações diversas chegam à Igreja Nossa Senhora da Conceição, passam o dia e a noite deste fim de semana lembrando as histórias e ensinamentos do Frei Padre Paolino Baldassari.

Sena Madureira, a cerca de 145 km da capital Rio Branco, tem sua história construída por migrantes vindos de toda parte para o trabalho na seringa no início do século passado. Chegou a ser capital do estado e seus rios Iaco, Caté e Macauã e suas diversas comunidades foram palco do isolamento após a queda dos ciclos da borracha. Uma grande população rural ficaria então refém das pressões de grandes latifundiários, da falta de educação, saúde e cidadania.

Vítima da Segunda Guerra Mundial, a mesma que gerava demanda pela borracha acreana, Paolino Baldassari fugiu para o Brasil na década de 1950. O filho de agricultores encontrou, em 1963, Sena Madureira, cidade que chamaria de casa. “Estou feliz por voltar para minha casa”, disse Paolino, ao voltar para sua igreja após dias no hospital em Rio Branco, depois de um derrame há alguns anos.

Desde então, a população rural e da cidade jamais ficaria desamparada. “Comecei a conhecer Paolino, porque ele fez comigo uma escola. Ele também conseguiu uma professora para lá”, relata Francisco Braña, 75 anos, do lado de fora da igreja movimentada na manhã deste domingo, 10. Braña, ainda emocionado pela perda do amigo, conta o que significou essa amizade: “Sou muito grato a ele. Foi ele que iniciou a vida dos meus oito filhos quando fez essa escola lá no seringal Ano Bom, no Rio Purus”.

"Foi ele que iniciou a vida dos meus oito filhos quando fez essa escola lá no seringal", diz Francisco (Foto: Arison Jardim/Secom)“Foi ele que iniciou a vida dos meus oito filhos quando fez essa escola lá no seringal”, diz Francisco (Foto: Arison Jardim/Secom)

Comunidade presta homenagens ao padre santo da cidade (Foto: Arison Jardim/Secom)
Comunidade presta homenagens ao padre santo da cidade (Foto: Arison Jardim/Secom)

A educação da floresta

Um dos professores convidados por Paolino para levar educação para os seringais, Jorge do Nascimento fez sua última conversa com seu mestre. Ao lado do corpo, já sem o grande sorriso que levou por 90 anos, Jorge lembrava das boas ações do padre. “Este homem dedicou-se plenamente pela educação. Carregava as peças de madeira nas costas para construir escolas e capelas”, revela emocionado com a saudade que já sentia em não poder encontrá-lo mais neste mundo.

Em uma época em que os conflitos de terra continuam tão violentos por outros estados do Brasil, o Acre deve muito a Paolino por ver ribeirinhos, moradores de comunidades distantes, seringueiros e ex-seringueiros sorridentes e com sua cidadania plena. Raimunda Nonata, com seus 53 anos, batizada e casada pelo padre, lá no Seringal Santo Antônio, no Rio Iaco, carrega orgulhosa um livro que ganhou de Paolino. Nele, ela narra a alegria com que Paolino chegava às comunidades, fazendo amizade com todos, brincando, contando piadas e levando felicidade e saúde.

“Em uma das fotos ele está com um sorrisão porque estava rindo do amigo, que procurava seu cigarro. E ele disse: ‘Sei o que você procura, mas já joguei no rio’”, conta Raimunda. Apontando para outras fotos, ela lembra que além de alguns atendimentos médicos, batismo, casamento, ele também dava conselhos para casais. No começo ele fazia 130 atendimentos por dia, depois com a saúde debilitada passou a fazer 60.

Citando cada uma das comunidades que ele andava, por vezes a pé ou a cavalo, Raimunda mostra uma das últimas fotos, que demonstra o orgulho que o seringueiro acreano tem de sua terra. “Sou apaixonada por essa foto”, aponta para uma imagem de Paolino cumprimentando um seringueiro, que voltava da colheita do látex, com o balde cheio. “Eu disse para ele que essa foto traz toda minha juventude, minha infância. Desse mesmo jeitinho era meu trabalho, ia cortar seringa mais meu pai, catava coco, cortava o cavaco para defumar”, diz Raimunda, orgulhosa de sua origem. “Quando ele me consultava e me mostrou esse livro, logo vi essa foto e pedi um para mim”, lembra. Paolino, já um ser da Amazônia, ajudou seu povo a honrar sua origem.

Defensor da floresta e de como ela era importante para quem ali morava, Paolino lutou cada minuto de sua vida para sua preservação. Ele conta em uma carta enviada ao jornal Folha de São Paulo, em 2015, às vezes em que pediu por intervenção nos desmate: “Aqui, a madeira e a venda de terras acabaram com a mata. Escrevi para vários presidentes. O primeiro foi o Itamar Franco, suplicando que desse alguma coisa, porque estava um desastre de fome”.

Imagem símbolo da vida de Padre Paolino era quando ele estava viajando pelos rios. Vanderlei Teles, lembra dos momentos em que cruzava com ele: “Era muito bonito quando eu passava por ele pelo Rio Iaco e ele tava na polpa do barco. Quando ele chegava à comunidade, estava todo mundo na beira do barranco já esperando ele”. Hoje, o céu espera Paolino.

Por Arison Jardim

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