Publicado em 27 de Janeiro de 2014

Um chute na mesmice

O que Muricy Ramalho tem que Oswaldo de Oliveira não tem? Não vale dizer a liderança de seu grupo no Paulistão, porque isso até você conseguiria.

Muricy foi jogador e Oswaldo não foi. E o técnico do Santos não é exclusivo. Dos doze times mais expressivos do Brasil, cinco têm treinadores que nunca chutaram uma bola profissionalmente: Gílson Kleina, do Palmeiras, Paulo Autuori, do Atlético-MG, Enderson Moreira, do Grêmio, Eduardo Húngaro, do Botafogo, além de Oswaldo de Oliveira, do Santos.

A novidade é apenas o número de “curiosos”. Luís Alonso Peres, o Lula, era o técnico do Santos de Pelé e é o recordista de títulos paulistas, com oito. Ganhou cinco vezes a Taça Brasil, também recorde considerando o Brasileirão unificado. Nunca foi jogador.

Nos anos 50, Martim Francisco foi campeão carioca pelo Vasco em 1956 e João Saldanha pelo Botafogo, em 1957. Nenhum foi jogador.

Mas parece que para ser técnico é preciso ter sido jogador.

“Admito precisar compensar o fato de não ter o sentimento dos jogadores com outras qualidades”, diz Eduardo Húngaro, do Botafogo.

O que eles têm e muitos boleiros não têm é a universidade. Estudar também não é tudo.
Virou lugar comum dizer que os técnicos brasileiros são sempre os mesmos, revezam-se nos principais clubes e não estão atualizados. Reunir estudo, carisma e experiência em campo pode ser o melhor cenário. Nem todos têm isso em nenhum lugar do mundo.

Guardiola tem.

Mourinho, não.

Mas admita-se ser mais difícil procurar emprego apenas com o currículo embaixo do braço.

Não é fácil para quem não jogou. Também não é para ex-jogadores de times modestos, como Mano Menezes, do Guarani-RS ou Felipão, do Caxias.

Na história das Copas, Juan López, do Uruguai em 1950, e Carlos Alberto Parreira, do Brasil em 1994, ganharam Copas como treinadores sem terem jogado profissionalmente. Arrigo Sacchi, vice em 1994, também não jogou: “Não é preciso ter sido cavalo para ser jóquei”, dizia.

Sacchi dirigiu o Milan bicampeão da Liga dos Campeões em 1989 e 1990. Até hoje, defende treinadores que inovem e surpreendam. Em seu período como treinador, conseguiu.

Oswaldo de Oliveira já fez grandes trabalhos, do Corinthians de 1999 ao Botafogo de 2013. Autuori ganhou duas Libertadores. Enderson, Kleina e Húngaro ainda têm muito o que vencer para se firmarem no mercado de treinadores. Vão ralar mais do que Jayme de Almeida, boleiro do passado que também comeu o pão que o diabo amassou antes de ter um bom emprego.

Impossível dizer quanto tempo esses nomes vão permanecer em clubes grandes. Mas reclama-se tanto da falta de novidades no futebol que esses nomes representam, no mínimo, um chute na mesmice.

NOVIDADE VERDE

Ainda não é possível dizer o que será do novo Palmeiras. Mas dá para ver como os novos jogadores reforçaram o elenco. Marquinhos Gabriel entrou e participou de dois gols ontem. Ainda tem Bruno César e Diogo. Se houver um ambiente bom entre eles, o Palmeiras será forte no ano do centenário.

ESQUENTANDO

O Cruzeiro não teve Nilton e usa o Mineiro como pré-temporada. Vencer na estreia é bom. Um gol de Ricardo Goulart garantiu o resultado no Mineirão com 13 mil pessoas e com a URT incomodando. Normal no primeiro jogo do ano. Para o campeão brasileiro, importante é chegar bem à Libertadores.

pvcPaulo Vinicius Coelho, 43, é jornalista desde os 18, quando publicou sua primeira reportagem no jornal ‘Gazeta do ABC’. Cobriu as Copas de 1994, 1998, 2006 e 2010. Hoje, também é comentarista da ESPN.

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